segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Aquilo que você já sabe.

(Escrito em 13/07/09)


Você me convida para um café, um sorvete, cinema, gasômetro. Há por lá um estacionamento novo, mais seguro, que você só agora descobriu. Então poderíamos ir até lá, tomar um café que não seja nem tão caro porque você bem sabe quanto sou mão-de-vaca nem tão amargo porque nós bem sabemos como você só toma café para me acompanhar. E na despedida não seria necessário que você entrasse no carro com muita pressa, passasse o cinto de segurança, errasse, e então partisse com o carro mesmo assim e só quando ele já estivesse andando tentasse o cinto de novo e pudesse respirar com um pouco de alívio – mas não com todo o alívio –, e logo não seria necessário que eu ficasse ressentida dos carinhos que não trocamos porque você morreu de medo mesmo dentro do estacionamento que não lhe parecia suficientemente seguro. Agora, muitos meses depois, você descobriu um estacionamento seguro e o que me é favorito, então sabe adequadamente me convidar para um sorvete e fazer a ressalva sobre minhas extremidades geladas com a mesma explicação que um dia lhe dei tentando incutir-lhe um pouco de minha parca fisiologia-patologia. É assim que você também pode me convidar para o cinema e acertar no filme, porque já aprendeu a entender que sempre me apetecem tuas escolhas francesas, ainda que eu fosse gostar de filmes de outras nacionalidades também. Você sabe de tudo que me é idiossincrático e também do que me é comum, e é por isso que você deve saber que apesar de minha frieza que controlo com luvas e poupando palavras seus convites me tocam, porque é explícito como nunca foi que temos as mesmas vontades e gostamos dos mesmos programas e etc e etc e é claro que eu só poderia sentir saudades disso apesar dos seus defeitos, ou melhor, das suas características que me desagradam e que levaram tudo a ruir. O que acho estranho, apenas, é que depois de tanto tempo você ainda tenha esperanças contra minha teimosia e método. Você sabe que eu não aceitaria, mesmo que não entenda ao certo o por quê e fique com raiva por dizer que me baseio no passado e que um dia pode ser diferente. É verdade, não acredito na mudança, mas meu n amostral é gigantesco, e você sabe o quanto gosto de fundamentar-me em evidências. Mas talvez eu devesse falar a sua língua agora. Talvez eu devesse simplesmente dizer-lhe que sair com você agora é como olhar sua escova de dentes que ficou no armarinho por um descuido qualquer e lembrar de você escovando os dentes ao meu lado e logo em seguida saindo de perto de mim por não suportar como eu faço barulho. É como estar de frente para essa escova, lembrar disso e de tantas outras escovas que usamos pela casa, rindo ou reclamando, e de como eu era feliz com isso. Não quero lembrar disso porque me faz mal, me faz triste, e eu me baseio em evidências de um n gigantesco que certamente me levará a um p<0,05 , de que chafurdar no que sentimos é uma grande idiotice se também sentimos e dissemos outras coisas que impedem que tudo isso volte, então o correto, p<0,05 , é que nos baseemos na escolha racional que provou com um intervalo de confiança compatível e uma puta relevância clínica que acabou, está acabado, e não tem mais como voltar atrás.

domingo, 12 de julho de 2009

O Lado Fatal

(Não escrevi dia nenhum. Foi LYA LUFT)

I

Quando meu amado morreu, não pude acreditar:
andei pelo quarto sozinha repetindo baixo:
"Não acredito, não acredito."
Beijei sua boca ainda morna,
acarinhei seu cabelo crespo,
tirei sua pesada aliança de prata com meu nome
e botei no dedo.
Ficou larga demais, mas mesmo assim eu uso.

II
Muita gente veio e se foi.
Olharam, me abraçaram, choraram,
todos com ar de uma incrédula orfandade.

III
Aquele de quem hoje falam e escrevem
(ou aos poucos vão-se esquecendo)
é muito menos do que este, deitado em meu coração,
meu amante e meu menino ainda.

IV
Deus
(ou foi a Morte?)
golpeou com sua pesada foice
o coração do meu amado
(não se vê a ferida, mas rasgou o meu também).
Ele abriu os olhos, com ar deslumbrado,
disse bem alto meu nome no quarto do hospital,
e partiu.
Quando se foram também os médicos e suas
[ máquinas inúteis,
ficamos sós: a Morte (ou foi Deus?)
o meu amado e eu.
Enterrei o rosto na curva do seu ombro
como sempre fazia,
disse as palavras de amor que costumávamos trocar.
O silêncio dele era absoluto: seu coração emudecido
e o meu, varados por essa dourada foice.
Por onde vou deixo o rastro de um sangue denso
[e triste
que não estancará jamais.



(Texto integral nesse site meio estranho: http://tiny.cc/YWM0W )

quarta-feira, 20 de maio de 2009

O que me faz feliz.



O que me faz feliz é ter-te à luz da tarde, raios UV intensidade 4 (fraco), depois do almoço. Aquela bobeira pós-prandial, deitar contigo e te abraçar. “Deixa eu te abraçar”. Então tu me olha, sorri e fica esperando, apesar de saber que o que eu quis dizer foi “vira pra lá, conchinha, sono” - assim meio telegráfico naquela lassidão que me impede de abrir a boca direito. De costas pra mim, te toco com minhas mãos geladas - e tu reclama. Não importa, acho tudo isso lindo com aquela luz, teus ombros, tu praticamente sem roupa mesmo sabendo que vai ter de levantar em meia hora. Tudo lindo mesmo com o vizinho falando no telefone, aos berros, e as crianças fazendo aquele barulho que tu acha que é com um instrumento detestável e que eu finjo ter certeza de que não, eles fazem aquilo soprando as mãos de alguma maneira. Vamos dormir esses dez minutos restantes? Mas aí te beijo o pescoço, hm. Não, está bem, vamos dormir. Fico tentando abstrair todo o barulho lá de fora e acho fantástico quando tu dá aquele chutezinho com a perna que significa “estou pegando no sono”. Desligo o despertador – o mesmo que um dia tu derrubou no chão porque foi me fazer cosquinha e eu superreagi e te derrubei e tu bateu no criado-mudo depois caiu junto com o despertador e trrriiim – e te digo que está na hora de ir. Está na hora de ir embora. A gata mia lá fora, ouvindo nossas vozes. E essas são as meias horas que me dão aquele sorriso idiota de todos os dias.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

A Dupla Vida de Veronique - Tempos de Samsara

(Escrito em alguma data há tempos atrás)


SAMSARA

O que me dói é ver-te entre lágrimas e sombra. Dói encontrar-te por aí nas ruelas e subsolos imundos, roupa branca, pele clara, alma doce, agora enlamada, descabelada, a esconder-se sob marquises dessa cidade Samsara. Tu, senhora dos tarôs e das magias. Tu, que enxergas além dos céus e dos corpos. Tu, Veronique, na cidade de Samsara. Dói. E eu, a quem foi dado o talento de enxergar possibilidades e potenciais, sofro junto, no deserto, tuas mordaças a prenderem meus pés. Porque te enxergo, roupa vermelha, pés descalços queimando na areia dos desertos, para longe de Samsara, vindo até mim. Te enxergo, cabeça erguida, semblante iluminado. Tua força emanando por cada poro da tua pele, e cada raio de sol que tu refletes enaltece tua figura incrível. És Sabina, dona do teu poder. Para além da prisão de vidro, a alma chegando à superfície e transbordando. Livre.


Em Samsara, entre sombras e sujeiras, te sigo, louca e alucinada. Te procuro, Veronique, incessantemente. Sento-me nas fontes de água salobra, pés descalços e pretos, braços marcados por unhas a coçar dessas pulgas que me mordem e comem. Sentada nas fontes, e minhas lágrimas vão ao encontro de seus iguais, água salobra das fontes – porque aqui em Samsara todos choram. Estou aqui, sem te encontrar, desejando-te loucamente. Estou doente, e tu tens febre. Estou doente, alucinada e com os pés pretos. Caminho entre as luzes dos postes de querosene a tremular chamas, te encontro em desgraça. Quero um abraço, te puxo pelos ombros, afundo unhas em tuas costas, te mordo o pescoço. Tu sentes a vertigem e tentas te desvencilhar do meu corpo que te invade com unhas, mãos e dentes, me empurras, não consegues te desvencilhar, afundo unhas em teus braços que foram seda, afundo dentes em teu pescoço que foi algodão-doce, tu me empurras, me larga!, maldita! Minhas mãos abertas de dedos que se embrenham em teus cabelos desgrenhados a te puxar, tu viras o rosto para o lado, maldita!, olho para baixo porque tu pisas em meus pés pretos, tu me empurras pelos ombros, eu cambaleio a quase cair, puxo tuas saias enormes e brancas e sujas, tu me odeias, maldita!, te rasgo a blusa com as unhas imundas e compridas, tu me cospes o rosto, empurro-te contra as grades das jaulas dos bichos, tu me empurras de volta, me puxas os cabelos, te piso os pés e te atiro no chão – maldita! Invado-te porque estou doente, cobro teu corpo porque estou podre.

Teu ódio é antigo. Eu tinha outra, a odalisca das falsas palavras, mulher corrompida. Eu sei. Tu me repugnavas, Veronique, e tinhas ciúmes. Vieste a nós, que nos devorávamos em volúpia num monte de feno e carrapatos. Vieste a nós, enlouquecida, olhos chorosos, apertando os dentes em desprezo, atiraste-me pedras. A mulher gargalhava, não tinha mais dentes, e seus amigos diabólicos me seduziam e cegavam. Tuas pedras me acordaram, Veronique, e corri atrás de ti, os diabos me puxando os pés, corri até ti, mas tu me fechaste a porta – te trancaste numa torre sem me atirar trança nenhuma. Os diabos me subiram as pernas, me aguçaram o sexo, inebriaram-me num torpor de energias que arrastam, e eu gargalhei sem dentes, mulher corrompida, atirada ao feno, gritei falsas palavras em volúpia. A odalisca me consumia e tua lembrança estava longe. A odalisca me consumia, e seus animais diabólicos me inebriavam, eu não sentia tua dor, pela primeira vez. Pela primeira vez, dissociada de teu sentir, Veronique. Perdida e caída nesta cidade do além-chão. Corri até ti, pés pretos e desgrenhada, e tu me fechaste a porta da torre sem me atirar as tranças. Por uns dias te esqueci, inebriada em volúpia. Eu sei, tu te digladiavas e berravas já rouca do alto da torre – o eco dos teus pavores a estourar teus próprios tímpanos. Digladiavas com teus demônios e sofrias. Corri aos braços da odalisca de olhar provocante, deitei-me neles buscando ilusões. Foram os primeiros braços dos tantos em que busquei Veroniques. Empenhada em esquecer-te, atirei-me de mulher em mulher, enquanto tu me observavas do alto da torre a reprovar-me. Machuquei-te com isso e de propósito, Veronique, porque te quis desde o primeiro instante, ainda antes de cairmos em Samsara, e me doeu a impossibilidade de te ter. Me doeu, porque te queria tanto e não podia. Embalada por diabólicos seres que me subiam as pernas, aguçavam meu sexo, atirei-me de mulher em mulher, odaliscas e salamancas, enganando-me. De vez em quando tu descias da torre, dissimulavas, me ajudavas a esmagar as uvas, nossos pés pretos, sujos e sangrantes. As uvas para o vinho a entorpecer nossas noites, quando caminhávamos pelas ruas dos postes de querosenes. Tudo era torto porque dissimulávamos e distorcíamos. Cravávamos no peito as unhas do rancor, como na música. Rancor, pois em mim também doía a lembrança da porta da torre que me fechaste à cara, tranças jogadas para um monstro que te sugava o sangue, te pisava e batia – mas tu o aceitavas porque era somente por ti, e por ninguém mais, que ele subiria até o alto de uma torre. Ele te sugava o sangue e tu lhe entregavas o pescoço com paixão. Assim me dizias, Veronique, e isso muito me doeu.

DESERTO

Marcas roxas no meu corpo agora me contam essa história longínqua. Agora lembro, Veronique. Naquela noite, lampiões de querosene, deixei Samsara quando meu coração lembrou que meu espírito era maior do que a mesquinhez de te rasgar as roupas e te atirar no chão. Teu rosto reluzente à luz dos querosenes, planície de lágrimas, teu peito a inflar e desinflar, a inflar e desinflar, a inflaredesinflar, teus soluços. Eu, monstra, suja, agarrando-te os punhos com violência, mordendo-te os lábios, e aquela música, aquela sinfonia, era uma noite, uma orquestra, tu em um xale rosa, teu perfume suave e doce, muito antes de cairmos na a cidade do além-chão. Muito antes dos pés pretos, cabelos despenteados, sombras e marquises. Soltei teus punhos, pedi-te desculpas, e tu fugiste para longe, embrenhou-te em Samsara. Vaguei uns dias por fontes e lágrimas, ralos e ratos, sem te encontrar. Cabisbaixa, olhos fitando o chão, vencida, fui seguindo a orquestra, o perfume suave. Vozes, de algum lugar elas surgiram e me disseram “Verônika, tu caíste e estás doente”. Sim, eu estava doente e suja, pés pretos, e horrorizaram-me as unhas ensangüentadas, roupas rasgadas, pele esfolada. Horrorizada, corri para fora dessa cidade construída dentro da prisão de vidro, cidade perdida e maldita. Veio o deserto, a saudade de ti, a fome e a sede. A estiagem que me fez definhar até encontrar esta cadeira de palha onde tuas mordaças me atam as pernas, onde o sol me traz mais idade e dor. Estou aqui tentando me livrar daquelas lembranças sombrias, e te espero. Estou aqui e também sorrio. Estou aqui, depositando minhas crenças em ti, torcendo para que te lembres que nosso mundo não é só Samsara e prisões de vidro, para que te lembres das orquestras e dos xales rosas. Estou aqui sorrindo, tranqüila, voltando ao meu centro. Voltando ao meu centro, porque minha fé é a de que isso também te guie para este deserto. É minha fé. Ainda me dói não estar contigo, não poder afastar o sofrimento. Dói não poder te dar a mão e tornar leve a caminhada difícil, a tornar antiga a angústia de tudo isso. Mas estou aqui, acreditando em ti. Por vezes e vezes meu ímpeto foi buscar-te em Samsara, mãos dadas, te mostrar as areias quentes. Tuas mordaças atando-me os pés, rastejei em direção à cidade do além-chão, as vozes voltaram. “Veronika, também já tiveste medo”. Sim, também já tive este medo, Veronique, mas a liberdade é algo tão maior, ainda que queime os pés. Ainda que queime os pés, Veronique. Não é preciso esconder-se sob marquises nem ter o corpo sujo. Força, Veronique. Força. Tu chegarás em teu vestido vermelho, pés nas areias quentes, a queimar. Virás, sorriso no rosto. E estarás tão certa e tão segura que os moradores do deserto te aplaudirão – mas nem a eles darás atenção, pois seguirás só o que vier de dentro. Não mais os elogios do deserto, não mais as maldições e pragas dos habitantes de Samsara, que nos odeiam. E eu te enxergarei chegar, tão orgulhosa. Caminharei até ti, porque terei descoberto que as mordaças não eram tuas. Caminharei até ti, e nos abraçaremos por horas. Por horas, Veronika e Veronique. Verdade. Então buscarei na cadeira de palha o livro que li 100 vezes na tua ausência. E, abraçando-te novamente, depois de tê-lo mostrado, sussurrarei em tua orelha:
-O amor nos tempos do cólera. Te esperei todo esse tempo.

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P.S.: lembranças a Krzysztof Kieslowski.

domingo, 5 de outubro de 2008

Do Improvável (2)




Se hoje as pernas em lótus equilibram o corpo a entonar a voz que canta como os teus,


É só porque o improvável aconteceu.


[ E ele canta hare krishna hare krishna

Krishna krishna hare hare

Hare rama hare rama

Rama rama hare hare ]

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P.S.: obrigada por trazer a espiritualidade de volta.

sábado, 4 de outubro de 2008

Do Improvável (1)



Se hoje flores vermelhas sobre um pires branco enfeitam a escada manchada, a combinar com o telefone antigo,

É só porque o improvável aconteceu.

[ E ele faz harmônico e alegre o que era pálido e insensato. ]
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P.S.: obrigada por trazer o colorido de volta.

sábado, 2 de agosto de 2008

Aquele da Lituânia


Falavam da saudade, da vontade de se encontrarem e do primeiro hoje-não-tem-como da semana. Então ela, sorrindo, lembrou do filme na noite anterior e disse, colada ao telefone: - Nós sempre teremos Paris.

Mas ele não queria Paris. Não, não, Paris deveria ser ótima, mas, ele sabia, já quiseram levá-la a Paris. Então não servia. Tinha de ser um lugar só deles. Só deles.

...

É sempre assim que ela explica, acentuando as pregas de expressão talhadas pelos muitos sorrisos (todos aqueles anos ao lado dele)... Sempre assim que ela explica, às visitas curiosas, a presença daqueles postais atípicos guardados na caixinha da mesa central da sala. “Vilnius – Lietuva”, vinha escrito no verso, em lituano. E, segurando um deles nas mãos, ela acostumou-se a ler,em voz alta, o P.S.: “Porque este lugar é só nosso”.

Da Súbita Compreensão

Estava ele a ler umas histórias do Caio, sentindo-se um cara meio mulherzinha. Lendo histórias do Caio e com uma panela no fogo: é, baita mulherzinha. Pensava nela, que recém havia saído de casa, desligado o telefone, depois de mais uma conversa sobre o medo que sentiam do futuro tantas vezes negro. Lia uma linha quando aconteceu. Aconteceu uma lâmpada piscante sobre sua cabeça, bem estereotipada. Compreendeu, subitamente, que o problema maior dos dois era aquele apego exagerado às antigas dificuldades dos relacionamentos que àquele precediam. E, exaustos de tanto tentarem dar certo com tantas pessoas e de tanta chateação (seriam os dois assim, rancorosos?), cobravam-se demais, tinham medos demais – e acabariam com rugas a mais, amor errado a mais, se assim continuassem. Depositavam suas sacolas de expectativas um sobre os ombros do outro, e eram tão pesadas e tantas (“o amor de verdade deve superar os outros na intensidade e sublimar os erros prévios” ), que uns ouvidos andavam doendo e uns músculos cervicais andavam insuportavelmente tensos.

Da Escada

Era mesmo curioso que, já no primeiro dia juntos (ou na décima sétima hora desde que se encontraram no dia do primeiro beijo), ao descer as escadas do prédio dela, ele com aquela cara de sono de quem ouviu o DVD do Abba rodar mais de dez vezes durante a madrugada... Ao descer as escadas do prédio dela, antes mesmo que ele pisasse em falso, ela ordenara, rápida: - Tira as mãos dos bolsos. E ele, nem tão rapidamente, mas firmemente decidido, fez o que ela pedira, confuso, sem compreender. Então, depois da descida silenciosa, os pés ganhando plenamente o último e definitivo chão... Então ela disse, sem olhar para ele, séria: - Agora pode colocar de volta, se quiser.

Porque, frente a uma escada, ela aprendera a associar vertigens, corpos tombando e escoriações (que só saravam com casamento, porque beijinho virara paliativo há anos). E era preciso prevenir-se, ter as mãos livres para evitar a queda.

Um verdadeiro presságio aquele episódio. Porque,semanas depois, o temor da queda tornou-se tanto, que vinha transformando cada degrau num parto. Empacados no degrau, olhavam-se, discutiam. “Será que vai dar certo?”.

“Vamos devagar”, ela disse. Porque meter pés por mãos é perigoso, tanto mais em escadas.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

"Amazônia perde mais de um campo de futebol por minuto"

(Terra notícias, 28/07/08)

15h, dia de sol, calor amazonense. Lépidos meninos corriam para lá e para cá, tropeçando, chutando ou esperando a bola de futebol. Um menino abaixou-se para atar os cadarços dos tênis (“uma orelhinha do coelho, outra orelhinha, agora elas se unem...”), outro levantou a camiseta suada, fungando. Um apito para cobrar a falta, uns zagueiros roendo as unhas.
Foi quando uma sombra gigantesca surgiu e escureceu a goleira de tábuas, o meio-campo, uns arbustos ao redor, a outra goleira de tábuas, e a quadra inteira foi tomada. Os meninos correram desordenadamente, apressados, apavorados, caindo, olhando para trás, para os lados, para cima, gritando “salve-sequempudeeeeer!”.

Desde então, nunca mais puderam jogar bola.
Hoje em dia atiram peteca no pátio, desolados.
(Triste fim.)

Foi assim que mais um campo de futebol desapareceu da Amazônia.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

FF

Fui eleita rainha. Das frases fragmentadas.

domingo, 29 de junho de 2008

Rey e o Presépio

(Diretamente do fim de semana "parasito-lógico", como diria a Bárbara)

Estrebaria. Na manjedoura, o pequeno Menino Jesus. Maria ao redor, embalando a criança, José acomodando-se no feno. Estrela guia no céu, três reis magos chegando. E uma maldita mosca S. calcitrans picando todo mundo.

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PS.: "Stomoxys calcitrans. Conhecido como 'mosca das estrebarias'". Rey, Bases da Parasitologia Médica

sexta-feira, 20 de junho de 2008

O Segundo Fim

(Escrito em março de 2008)

E do que vivemos, meu amor
Sobrou apenas teu relógio quebrado
Perdido na gaveta perdida do meu criado-mudo
- perdido.
Quebrado,
E martela toda a manhã,
Às 7h,
Que nosso tempo passou.

-

Ainda mais do que relógio quebrado,
Meu amor,
Sobrou também a roupa que tu me deste
Que não consigo lavar
E sobrou o copo em que tu bebeste
Na pia com louça que não consigo limpar
Para completar a dor, meu amor,
Teu cabelo enrolado
Ainda nos lençóis que não consigo trocar
No chão que não consigo varrer.

O Despertar da Nada Bela Adormecida

(Escrito em 24.02.08)

Acordou cedo da manhã com aquele alarme desconhecido. Sonolenta, desgrenhada e cheia de remelas, chafurdou estabanada na gaveta do criado-mudo - que caiu, na escuridão do quarto fechado. Levantou-se, irritada e zonza, ascendeu a luz. Agüentou, corajosa, a dor dos olhos, que incharam. Sentada sozinha no canto da cama de casal que às vezes era enorme, esfregando o rosto com uma das mãos enquanto bocejava, a gaveta caída do chão juntada para o colo, encontrou finalmente o objeto misterioso. Sorrindo. Porque os príncipes de hoje poupam as adormecidas do beijo saburrento - esquecem com elas seus relógios.

sábado, 15 de setembro de 2007

Sobre arrependimentos

(em clima introspectivo)

Não deveria ter falado aquelas coisas. Deveria ter calado, remoído incessantemente até a falência do rúmen. Sentia-se arrependida. Um paradoxo. Afinal, começava a perceber que o arrependimento costumava ser-lhe positivo, uma ferramenta que restaurava sua conduta íntegra. Falava algo a mais. Arrependia-se. Temia perder a pessoa querida a quem tinha proferido aquele excesso desnecessário de palavras. Percebia, num encantar-se teatral, o quanto gostava dessa pessoa. O quanto queria ela perto. Compunha-se, então, em efeito compensatório, na mais carinhosa das criaturas. E era capaz de sentir-se finalmente satisfeita. É. Agora sabia. Queria estar com ele. Sentia a falta dele.
Pensava naquilo, mexendo o cabelo para lá e para cá, olhando para os carros que passavam na rua e não os vendo, aspirando o cheiro do ar que prevê chuva e não sentindo. Descobria a si mesma naquela escadaria.
Se era mesmo verdade que o arrependimento, no fim, tinha um efeito positivo sobre ela, isso era apenas momentaneamente bom. Momentaneamente e ainda de forma egoísta. Porque, a longo prazo, quantas vezes machucaria alguém para se arrepender frente a seus “ai”s? E teve medo. Medo de ser uma cretina.
Parou o mundo, voltou no tempo. Tentou lembrar, vez a vez, situações que a comprometessem. Buscou o acusador e o defensor. Abria o inquérito e aguardava o julgamento.
Sentiu-se um pouco Franz Kafka com suas inquietações e pensou que esse era o mal de quem pensa demais. Tentando se distrair, deu tickets de cinema para sua membrana seletiva a pensamentos e deixou que qualquer um entrasse. Todos os pensamentos teriam os mesmo direitos de invadir o seu salão. Igualdade, liberdade, fraternidade. Depois pensou em malabares com fogo.
E cansou.
(Porque pensar cansa.)

E não houve conclusão.
(Porque às vezes não há)

sábado, 18 de agosto de 2007

O Menino do Chiclete

(escrito em agosto de 2006)

O menino do chiclete no carpete. Gente! Menino bom. Teve idéia uma vez, rasgou embalagem de um tabletinho, dois, três de chiclete, pôs fora o papel, tacou o resto na boca, mastigou muito, com força, quase doendo a musculatura mastigante. Tirou tudo da boca. Espichou bem toda aquela massa de chiclete com a mão suja de fazer carinho no cachorro, comer salgadinho e ir ao banheiro sem lavar as mãos. Subiu no sofá, esticou-se na ponta dos pés, enozou parte do chiclete no lustre da sala, a outra extremidade ficou quase alcançando o chão. Pulou do sofá. Foi correndo, então, até seu quarto, todo eufórico, cheio de um receio de que alguém viesse ralhar com ele antes de ele terminar o grande, mirabolante plano de brincadeira só dele. Abriu um baú de madeira, vasculhou os cacos de brinquedos velhos, nervoso, bagunçando muito. Até que achou – achou! – o bonequinho do homem-aranha. Voltou num zapt até a sala, tudo estava igual a antes. Olhou em volta, não parecia que alguém da casa ia chegar ali logo, ainda não tinham dado falta dele. Pendurou o boneco no barbante de chiclete. Que legaaaaal, que superhipermegafantástico! O homem-aranha ia salvar o controle remoto velho, esquecido cheio de pó em cima da tv. E tchá, lá vai o homem-aranha, com sua importante aventura narrada a estilo futebolístico, sua gigantesca teia gosmenta e elástica. Mas, muito no de repente, um barulho de trinque, uma porta abrindo! O menino levou um susto, and he gasped quase merecendo “oh” exclamativo versão hollywoodiana. Pensou que lhe iam xingar, que ia levar castigo, ficar sem comer sorvete, ter de fazer tema extra, engolir decoradas as tabuadas todas. Era a mãe. Viu o lustre. Viu o chiclete. Viu o menino. Estava séria de doer, de doer no menino, todo preocupado. E novo susto se deu: a gargalhada da mãe fazia vibrar freneticamente os tímpanos do filho.
- O homem-aranha está fazendo rappel?
A mãe era muito burra mesmo. Para quê ele faria rappel, ele tinha sua própria teia chicletística. Mas deixa, deixa a mãe, coitada. Não tem culpa de ser ignorante.

(sem título)

(escrito em julho de 2006)

- Oi, tudo bem?
- Não vou responder.
Foi com uma rapidez embasbacante que os cantos da boca de Márcio – os quais até então apontavam para cima, aprumando as bochechas na mesma direção - esparramaram-se para os lados e para baixo, e, numa conjuntura expressiva de olhos, sobrancelhas, boca e mais uns musculozinhos faciais cujos nomes não importam, o rosto virou interrogativo-exclamativo. Travou no chão o pé esquerdo que, concomitantemente a tudo isso, subia no ar de modo a não desengatar o ritmo a que vinha andando desde ladeira abaixo até o momento em que Márcio cumprimentou Malvina na frente da praça 7 de Setembro, às 14 horas e 32 minutos, dia de sol. E o par de pés fez um giro, o tronco desajeitado do homem acompanhou e, em seguida, voltou-se para a conhecida:
- Como é que é?
Malvina continuava parada na calçada, desde os milésimos de segundos atrás em que sua resposta inusitada tomara conta do Centro da cidade. Com um ar de sabe-tudo, deu continuidade ao diálogo:
- Você não quer saber se estou bem de verdade. Faz isso por costume ou educação. Se é que é possível chamar de educação o ato de perguntar algo que não se quer saber a alguém que a gente pouco conhece! Aliás, ainda que muito conhecesse: “vou bem” não é a resposta unânime e invariável?
Malvina fez uma pausa para observar o espanto de Márcio. Encarava-o, apertando bem os lábios para não desatar a rir, enquanto Márcio permanecia com a mesma expressão com a qual o deixamos. É. Talvez as sobrancelhas tenham envergado um pouco mais, e duas ou três rugas tenham aparecido em sua testa.
Era com muito prazer que Malvina descobria a estranheza alheia às suas idéias, pois despertá-la era seu mais cotado hobby. Satisfeitíssima por ter atingido seus objetivos até então – era o que a reação de Márcio lhe mostrava -, prosseguiu:
- Então... Não é uma pergunta inútil? Pois que a resposta já se sabe de antemão e, pior, também se sabe que o mais provável é que não seja verdadeira? Ou o senhor acha que todas as pessoas a quem hoje fez essa pergunta estavam bem de verdade?
Márcio pigarreou – coisa que não muda em nada a história. Malvina mudava agora o tom de voz. Para o leitor, nenhuma das duas coisas faz diferença; então me escuso a respeito do relato inútil e volto ao que falava Malvina.
- Quase um descargo de consciência, essa pergunta. Um absurdo! Mas... Seu Márcio... Porque sou solidária e respeito as necessidades humanas de manter em prática esse costume sem sentido algum, respondo ao que você me perguntou: estou bem.
Dádiva celeste! A paz e a harmonia preencheram a alma de Márcio para todo o sempre. O discurso de Malvina era imprestável para ele: tudo o que aquele senhor queria ouvir era o rotineiro “vou bem” ou quaisquer de suas expressões sinônimas. Porque Márcio era homem de costumes, não de reflexões.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

O Bilhete

(Escrito em 12/11/06)

Ele olhou torto quando ela lhe entregou o bilhete. O que era aquilo? Aquele tipo de curiosidade estática em que a criatura não consegue se torcer. Câimbra geral, um sangue baixo, não sei. O que era aquilo? Ora, o senhor vai ver, já não te diz isso o meu sorriso frouxo arrependido do mistério por nem ser isso de grande importância? Devia eu ter é então ao menos incrementado a letra, as palavras, atribuído ao escrito um quê sensual-provocativo-conquistador. Nem me prestei, é só um bilhete. E não fica assim me olhando, não faz com que eu me quede em arrependimento mais damático-fatídico-oh-deus-perdi-minha-chance. Vai ele ávido abrir o papel dobrado em dois. Ela ainda sorria. Ah, eu devia ter dobrado mais vezes também, se tivesse real interessância ali dentro. Ou nem dobrado e nem escrito, já que era só aquela bobagem. “É só uma bobagem”, ela falou, antevendo uma decepção. Então a curiosidade estática dele transmutou-se de repente em ágil avidez cinética, ele abrindo a dobradura com força a capaz de rasgar papel vagabundo. E era mesmo papel vagabundo.
- O que isso...
- Eu disse que era uma besteira.
- Mas o que isso...
- Significa?
- É.
Perplexidade. Há momentos estúpidos da vida em que a dona sorte morre de pena e mete a mão a dar um empurrãozinho a botar tudo de volta nos trilhos. Meio enjambrado, mas disfarça o ridículo da situação. Noutros ela não tem tanta piedade, nem nós inspiração. E ela não teve e nós não tivemos. Então a verdade foi o único óbvio caminho.
- Ahn...É só uma pergunta que eu tinha esquecido de perguntar.
Terrível. Uma testa enrugada-interrogativa na frente de uma simples mulherzinha desmorona qualquer iniciativa mal planejada como a do bilhete.
- É, eu tinha esquecido. Me responde outra hora, sei lá.
- Mas por que é que tu...
- Queria saber disso?
- É.
Lançando mão do vira-jogo: diafragma desce, pulmão infla, contrai a musculatura intercostal, uma sistemática do improviso, a cabeça inclina para cima, a voz se mente segura de orgulho inventado numa altivez cheia de si:
- Ora! Agora vai me perguntar o porquê, é? Tu por acaso não entende que pergunta é só feita para se responder?
Explosão. Descontrole total. Impulso maluco? Veio uma sinapse transgênica impregnada de atos copiados nunca vistos na mulher:
- Vai ser desconfiado assim! Desisto! De-sis-to!
E saiu pela porta toda brava.
- Credo! Cada louco com suas...
Parou para pensar.
- ... com seus bilhetes!
Mas maldito episódio com cada palavrinha ficou por séculos na cabeça do homem. Aquela mulherzinha! Ela tinha algo de estranhamente intrigante. Intrigante e ameaçador. Porque ele não sabia a resposta. Ele nunca tinha pensado naquilo e, sinceramente, estava confuso sobre a necessidade da reflexão. Sabia tão pouco de si mesmo! Aquela mulherzinha... Chocar e intrigar com atos inusitados! Aquele bilhete... Posto o papel na boca dobrado, roçando na ponta de um dos caninos. Molhou da saliva e engoliu de raiva. Aquela mulherzinha. Aquele bilhete. Aquela pergunta!