Sábado, 20 de Junho de 2009

Carta

(Escrito em 19/02/07)

Eu sei que não quis, mas chateou. E não quero mais me relacionar contigo de nenhuma forma porque a cada mudança brusca tua me quedo no desamparo do meu carinho por ti. É um abismo onde bate um vento gelado e onde a única resposta que obtenho à minha inquietude é o eco dos meus soluços. E lá eu esperaria ansiosa por tempo indefinido o teu retorno sem a certeza dele.
...Mas pensei melhor. Pensei melhor e, ainda que inconsciente, ainda que não-intencional, tua inconstância me arranha e faz doer, e, sendo todo esse sofrimento de caráter altamente opcional, me resolvi por te deixar. Por egoísmo, covardia. Ou por simplesmente lucidez.
(Que te falta)

Domingo, 7 de Junho de 2009

Daí

Você foi embora.
E eu fiquei aqui, mordendo a embalagem do desodorante e cheirando naftalina.

Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

O que me faz feliz.



O que me faz feliz é ter-te à luz da tarde, raios UV intensidade 4 (fraco), depois do almoço. Aquela bobeira pós-prandial, deitar contigo e te abraçar. “Deixa eu te abraçar”. Então tu me olha, sorri e fica esperando, apesar de saber que o que eu quis dizer foi “vira pra lá, conchinha, sono” - assim meio telegráfico naquela lassidão que me impede de abrir a boca direito. De costas pra mim, te toco com minhas mãos geladas - e tu reclama. Não importa, acho tudo isso lindo com aquela luz, teus ombros, tu praticamente sem roupa mesmo sabendo que vai ter de levantar em meia hora. Tudo lindo mesmo com o vizinho falando no telefone, aos berros, e as crianças fazendo aquele barulho que tu acha que é com um instrumento detestável e que eu finjo ter certeza de que não, eles fazem aquilo soprando as mãos de alguma maneira. Vamos dormir esses dez minutos restantes? Mas aí te beijo o pescoço, hm. Não, está bem, vamos dormir. Fico tentando abstrair todo o barulho lá de fora e acho fantástico quando tu dá aquele chutezinho com a perna que significa “estou pegando no sono”. Desligo o despertador – o mesmo que um dia tu derrubou no chão porque foi me fazer cosquinha e eu superreagi e te derrubei e tu bateu no criado-mudo depois caiu junto com o despertador e trrriiim – e te digo que está na hora de ir. Está na hora de ir embora. A gata mia lá fora, ouvindo nossas vozes. E essas são as meias horas que me dão aquele sorriso idiota de todos os dias.

Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

A Dupla Vida de Veronique - Tempos de Samsara

(Escrito em alguma data há tempos atrás)


SAMSARA

O que me dói é ver-te entre lágrimas e sombra. Dói encontrar-te por aí nas ruelas e subsolos imundos, roupa branca, pele clara, alma doce, agora enlamada, descabelada, a esconder-se sob marquises dessa cidade Samsara. Tu, senhora dos tarôs e das magias. Tu, que enxergas além dos céus e dos corpos. Tu, Veronique, na cidade de Samsara. Dói. E eu, a quem foi dado o talento de enxergar possibilidades e potenciais, sofro junto, no deserto, tuas mordaças a prenderem meus pés. Porque te enxergo, roupa vermelha, pés descalços queimando na areia dos desertos, para longe de Samsara, vindo até mim. Te enxergo, cabeça erguida, semblante iluminado. Tua força emanando por cada poro da tua pele, e cada raio de sol que tu refletes enaltece tua figura incrível. És Sabina, dona do teu poder. Para além da prisão de vidro, a alma chegando à superfície e transbordando. Livre.


Em Samsara, entre sombras e sujeiras, te sigo, louca e alucinada. Te procuro, Veronique, incessantemente. Sento-me nas fontes de água salobra, pés descalços e pretos, braços marcados por unhas a coçar dessas pulgas que me mordem e comem. Sentada nas fontes, e minhas lágrimas vão ao encontro de seus iguais, água salobra das fontes – porque aqui em Samsara todos choram. Estou aqui, sem te encontrar, desejando-te loucamente. Estou doente, e tu tens febre. Estou doente, alucinada e com os pés pretos. Caminho entre as luzes dos postes de querosene a tremular chamas, te encontro em desgraça. Quero um abraço, te puxo pelos ombros, afundo unhas em tuas costas, te mordo o pescoço. Tu sentes a vertigem e tentas te desvencilhar do meu corpo que te invade com unhas, mãos e dentes, me empurras, não consegues te desvencilhar, afundo unhas em teus braços que foram seda, afundo dentes em teu pescoço que foi algodão-doce, tu me empurras, me larga!, maldita! Minhas mãos abertas de dedos que se embrenham em teus cabelos desgrenhados a te puxar, tu viras o rosto para o lado, maldita!, olho para baixo porque tu pisas em meus pés pretos, tu me empurras pelos ombros, eu cambaleio a quase cair, puxo tuas saias enormes e brancas e sujas, tu me odeias, maldita!, te rasgo a blusa com as unhas imundas e compridas, tu me cospes o rosto, empurro-te contra as grades das jaulas dos bichos, tu me empurras de volta, me puxas os cabelos, te piso os pés e te atiro no chão – maldita! Invado-te porque estou doente, cobro teu corpo porque estou podre.

Teu ódio é antigo. Eu tinha outra, a odalisca das falsas palavras, mulher corrompida. Eu sei. Tu me repugnavas, Veronique, e tinhas ciúmes. Vieste a nós, que nos devorávamos em volúpia num monte de feno e carrapatos. Vieste a nós, enlouquecida, olhos chorosos, apertando os dentes em desprezo, atiraste-me pedras. A mulher gargalhava, não tinha mais dentes, e seus amigos diabólicos me seduziam e cegavam. Tuas pedras me acordaram, Veronique, e corri atrás de ti, os diabos me puxando os pés, corri até ti, mas tu me fechaste a porta – te trancaste numa torre sem me atirar trança nenhuma. Os diabos me subiram as pernas, me aguçaram o sexo, inebriaram-me num torpor de energias que arrastam, e eu gargalhei sem dentes, mulher corrompida, atirada ao feno, gritei falsas palavras em volúpia. A odalisca me consumia e tua lembrança estava longe. A odalisca me consumia, e seus animais diabólicos me inebriavam, eu não sentia tua dor, pela primeira vez. Pela primeira vez, dissociada de teu sentir, Veronique. Perdida e caída nesta cidade do além-chão. Corri até ti, pés pretos e desgrenhada, e tu me fechaste a porta da torre sem me atirar as tranças. Por uns dias te esqueci, inebriada em volúpia. Eu sei, tu te digladiavas e berravas já rouca do alto da torre – o eco dos teus pavores a estourar teus próprios tímpanos. Digladiavas com teus demônios e sofrias. Corri aos braços da odalisca de olhar provocante, deitei-me neles buscando ilusões. Foram os primeiros braços dos tantos em que busquei Veroniques. Empenhada em esquecer-te, atirei-me de mulher em mulher, enquanto tu me observavas do alto da torre a reprovar-me. Machuquei-te com isso e de propósito, Veronique, porque te quis desde o primeiro instante, ainda antes de cairmos em Samsara, e me doeu a impossibilidade de te ter. Me doeu, porque te queria tanto e não podia. Embalada por diabólicos seres que me subiam as pernas, aguçavam meu sexo, atirei-me de mulher em mulher, odaliscas e salamancas, enganando-me. De vez em quando tu descias da torre, dissimulavas, me ajudavas a esmagar as uvas, nossos pés pretos, sujos e sangrantes. As uvas para o vinho a entorpecer nossas noites, quando caminhávamos pelas ruas dos postes de querosenes. Tudo era torto porque dissimulávamos e distorcíamos. Cravávamos no peito as unhas do rancor, como na música. Rancor, pois em mim também doía a lembrança da porta da torre que me fechaste à cara, tranças jogadas para um monstro que te sugava o sangue, te pisava e batia – mas tu o aceitavas porque era somente por ti, e por ninguém mais, que ele subiria até o alto de uma torre. Ele te sugava o sangue e tu lhe entregavas o pescoço com paixão. Assim me dizias, Veronique, e isso muito me doeu.

DESERTO

Marcas roxas no meu corpo agora me contam essa história longínqua. Agora lembro, Veronique. Naquela noite, lampiões de querosene, deixei Samsara quando meu coração lembrou que meu espírito era maior do que a mesquinhez de te rasgar as roupas e te atirar no chão. Teu rosto reluzente à luz dos querosenes, planície de lágrimas, teu peito a inflar e desinflar, a inflar e desinflar, a inflaredesinflar, teus soluços. Eu, monstra, suja, agarrando-te os punhos com violência, mordendo-te os lábios, e aquela música, aquela sinfonia, era uma noite, uma orquestra, tu em um xale rosa, teu perfume suave e doce, muito antes de cairmos na a cidade do além-chão. Muito antes dos pés pretos, cabelos despenteados, sombras e marquises. Soltei teus punhos, pedi-te desculpas, e tu fugiste para longe, embrenhou-te em Samsara. Vaguei uns dias por fontes e lágrimas, ralos e ratos, sem te encontrar. Cabisbaixa, olhos fitando o chão, vencida, fui seguindo a orquestra, o perfume suave. Vozes, de algum lugar elas surgiram e me disseram “Verônika, tu caíste e estás doente”. Sim, eu estava doente e suja, pés pretos, e horrorizaram-me as unhas ensangüentadas, roupas rasgadas, pele esfolada. Horrorizada, corri para fora dessa cidade construída dentro da prisão de vidro, cidade perdida e maldita. Veio o deserto, a saudade de ti, a fome e a sede. A estiagem que me fez definhar até encontrar esta cadeira de palha onde tuas mordaças me atam as pernas, onde o sol me traz mais idade e dor. Estou aqui tentando me livrar daquelas lembranças sombrias, e te espero. Estou aqui e também sorrio. Estou aqui, depositando minhas crenças em ti, torcendo para que te lembres que nosso mundo não é só Samsara e prisões de vidro, para que te lembres das orquestras e dos xales rosas. Estou aqui sorrindo, tranqüila, voltando ao meu centro. Voltando ao meu centro, porque minha fé é a de que isso também te guie para este deserto. É minha fé. Ainda me dói não estar contigo, não poder afastar o sofrimento. Dói não poder te dar a mão e tornar leve a caminhada difícil, a tornar antiga a angústia de tudo isso. Mas estou aqui, acreditando em ti. Por vezes e vezes meu ímpeto foi buscar-te em Samsara, mãos dadas, te mostrar as areias quentes. Tuas mordaças atando-me os pés, rastejei em direção à cidade do além-chão, as vozes voltaram. “Veronika, também já tiveste medo”. Sim, também já tive este medo, Veronique, mas a liberdade é algo tão maior, ainda que queime os pés. Ainda que queime os pés, Veronique. Não é preciso esconder-se sob marquises nem ter o corpo sujo. Força, Veronique. Força. Tu chegarás em teu vestido vermelho, pés nas areias quentes, a queimar. Virás, sorriso no rosto. E estarás tão certa e tão segura que os moradores do deserto te aplaudirão – mas nem a eles darás atenção, pois seguirás só o que vier de dentro. Não mais os elogios do deserto, não mais as maldições e pragas dos habitantes de Samsara, que nos odeiam. E eu te enxergarei chegar, tão orgulhosa. Caminharei até ti, porque terei descoberto que as mordaças não eram tuas. Caminharei até ti, e nos abraçaremos por horas. Por horas, Veronika e Veronique. Verdade. Então buscarei na cadeira de palha o livro que li 100 vezes na tua ausência. E, abraçando-te novamente, depois de tê-lo mostrado, sussurrarei em tua orelha:
-O amor nos tempos do cólera. Te esperei todo esse tempo.

------
P.S.: lembranças a Krzysztof Kieslowski.

Da Calça Jeans

- Depois de 24h com essa roupa do bloco, essa calça jeans larguíssima parece tão apertada...
- Tava pensando a mesma coisa.
- ...Incrível como nos acostumamos com coisas opressivas.

Do Passarinho Verde

- Tá feliz, hein? Viu um passarinho verde?
- Acho que se ela visse um passarinho, não estaria feliz.
- Passarinho? Haha! E... Verde!? ...Ainda por cima é de borracha!?

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2008

No varal de nylon


Mangas e golas
Murchas e mudas
Presas por prendedores podres
Carcaças que o sol secou.

Estamos aqui, e a vertigem me chama.
Quero cair, Santa!

Me deixa!

Maldita angústia de pendular!
Maldita angústia de nos ver secar!
Maldita angústia de calar a angústia!

Chega de prendedor, chega de varal!
Não me servem mangas e golas
Só braços abraços teus braços teus abraços!
Chega de prendedor, chega de varal!
Não me basta sermos carcaça
Quero alma ser presença tua alma teu ser tua presença!

Me deixa, Santa!

Maldito fio de nylon,

Quero cair!

Domingo, 5 de Outubro de 2008

Do Improvável (2)



Se hoje as pernas em lótus equilibram o corpo a entonar a voz que canta como os teus,


É só porque o improvável aconteceu.


[ E ele canta hare krishna hare krishna

Krishna krishna hare hare

Hare rama hare rama

Rama rama hare hare ]

---------------------------------------------------------------------------------
P.S.: obrigada por trazer a espiritualidade de volta.

Sábado, 4 de Outubro de 2008

Do Improvável (1)



Se hoje flores vermelhas sobre um pires branco enfeitam a escada manchada, a combinar com o telefone antigo,

É só porque o improvável aconteceu.

[ E ele faz harmônico e alegre o que era pálido e insensato. ]
----------------------------------------------------------------------------------
P.S.: obrigada por trazer o colorido de volta.

Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008

Do Deboche

Ela estava impaciente. Catava roupas atiradas sobre o sofá, pendurada nas cadeiras da mesa, caídas no chão. E ele ali, resvalado na sua daddy’s chair, jornal de domingo aberto sobre as pernas frouxamente cruzadas.

Ela: - Vocês homens são uns molengas!

Ele, voltando-se para ela enquanto virava a página: - Ah, querida... Não é bem assim. Não faço tão mal julgamento dos homens.

Ela: - A-há! ... Tu gosta de homem!!

Ele: - Ah, pronto. Eu sou homem. Só isso.

Ela: - Hm. Homem...

Ele: - ...

Ela: -...

Ele: - Que foi?

Ela: - Haaaaahahahahahahahahahahaha

Sábado, 2 de Agosto de 2008

Aquele da Lituânia


Falavam da saudade, da vontade de se encontrarem e do primeiro hoje-não-tem-como da semana. Então ela, sorrindo, lembrou da conversa na noite anterior e disse, colada ao telefone: - Nós sempre teremos Paris.

Mas ele não queria Paris. Não, não, Paris deveria ser ótima, mas, ele sabia, já quiseram levá-la a Paris. Então não servia. Tinha de ser um lugar só deles. Só deles.

...

É sempre assim que ela explica, acentuando as pregas de expressão talhadas pelos muitos sorrisos (todos aqueles anos ao lado dele)... Sempre assim que ela explica, às visitas curiosas, a presença daqueles postais atípicos guardados na caixinha da mesa central da sala. “Vilnius – Lietuva”, vinha escrito no verso, em lituano. E, segurando um deles nas mãos, ela acostumou-se a ler,em voz alta, o P.S.: “Porque este lugar é só nosso”.

Da Súbita Compreensão

Estava ele a ler umas histórias do Caio, sentindo-se um cara meio mulherzinha. Lendo histórias do Caio e com uma panela no fogo: é, baita mulherzinha. Pensava nela, que recém havia saído de casa, desligado o telefone, depois de mais uma conversa sobre o medo que sentiam do futuro tantas vezes negro. Lia uma linha quando aconteceu. Aconteceu uma lâmpada piscante sobre sua cabeça, bem estereotipada. Compreendeu, subitamente, que o problema maior dos dois era aquele apego exagerado às antigas dificuldades dos relacionamentos que àquele precediam. E, exaustos de tanto tentarem dar certo com tantas pessoas e de tanta chateação (seriam os dois assim, rancorosos?), cobravam-se demais, tinham medos demais – e acabariam com rugas a mais, amor errado a mais, se assim continuassem. Depositavam suas sacolas de expectativas um sobre os ombros do outro, e eram tão pesadas e tantas (“o amor de verdade deve superar os outros na intensidade e sublimar os erros prévios” ), que uns ouvidos andavam doendo e uns músculos cervicais andavam insuportavelmente tensos.

Da Escada

Era mesmo curioso que, já no primeiro dia juntos (ou na décima sétima hora desde que se encontraram no dia do primeiro beijo), ao descer as escadas do prédio dela, ele com aquela cara de sono de quem ouviu o DVD do Abba rodar mais de dez vezes durante a madrugada... Ao descer as escadas do prédio dela, antes mesmo que ele pisasse em falso, ela ordenara, rápida: - Tira as mãos dos bolsos. E ele, nem tão rapidamente, mas firmemente decidido, fez o que ela pedira, confuso, sem compreender. Então, depois da descida silenciosa, os pés ganhando plenamente o último e definitivo chão... Então ela disse, sem olhar para ele, séria: - Agora pode colocar de volta, se quiser.

Porque, frente a uma escada, ela aprendera a associar vertigens, corpos tombando e escoriações (que só saravam com casamento, porque beijinho virara paliativo há anos). E era preciso prevenir-se, ter as mãos livres para evitar a queda.

Um verdadeiro presságio aquele episódio. Porque,semanas depois, o temor da queda tornou-se tanto, que vinha transformando cada degrau num parto. Empacados no degrau, olhavam-se, discutiam. “Será que vai dar certo?”.

“Vamos devagar”, ela disse. Porque meter pés por mãos é perigoso, tanto mais em escadas.

Segunda-feira, 28 de Julho de 2008

"Amazônia perde mais de um campo de futebol por minuto"

(Terra notícias, 28/07/08)

15h, dia de sol, calor amazonense. Lépidos meninos corriam para lá e para cá, tropeçando, chutando ou esperando a bola de futebol. Um menino abaixou-se para atar os cadarços dos tênis (“uma orelhinha do coelho, outra orelhinha, agora elas se unem...”), outro levantou a camiseta suada, fungando. Um apito para cobrar a falta, uns zagueiros roendo as unhas.
Foi quando uma sombra gigantesca surgiu e escureceu a goleira de tábuas, o meio-campo, uns arbustos ao redor, a outra goleira de tábuas, e a quadra inteira foi tomada. Os meninos correram desordenadamente, apressados, apavorados, caindo, olhando para trás, para os lados, para cima, gritando “salve-sequempudeeeeer!”.

Desde então, nunca mais puderam jogar bola.
Hoje em dia atiram peteca no pátio, desolados.
(Triste fim.)

Foi assim que mais um campo de futebol desapareceu da Amazônia.

Quarta-feira, 2 de Julho de 2008

FF

Fui eleita rainha. Das frases fragmentadas.

Domingo, 29 de Junho de 2008

Rey e o Presépio

(Diretamente do fim de semana "parasito-lógico", como diria a Bárbara)

Estrebaria. Na manjedoura, o pequeno Menino Jesus. Maria ao redor, embalando a criança, José acomodando-se no feno. Estrela guia no céu, três reis magos chegando. E uma maldita mosca S. calcitrans picando todo mundo.

------------------------------------------------------------------------------
PS.: "Stomoxys calcitrans. Conhecido como 'mosca das estrebarias'". Rey, Bases da Parasitologia Médica

Sexta-feira, 20 de Junho de 2008

Puleiro

(Escrito em 30.03.08)

Triste a vida no puleiro. Pensava nisso a moça em decúbito dorsal mirando o teto, irritada e sonolenta. Os tampões de ouvido pretos de sujeira já não prestavam mais - ela escutava com perfeição a barulheira no andar de cima. Xingou, esbravejou, levantou da cama. Bateu a ponta da sombrinha no teto alto do corredor. Não adiantou. Por que não faziam sexo? O barulho cadenciado lhe facilitaria o sono. Mas nããão, tinha de ser aquele maldito barulho desavisado, repentino! Já que era assim, deu duas voltas pelo apartamento, pensando, até desistir e se render. Estava tentando livrar-se da tirania daquele objeto desde o dia em que chamaram-na dependente. Mas outro remédio não havia. Cedeu.



Vestida para dormir no Alaska, pôs o ventilador de teto para decolar. E, alheia a todos os ruídos do mundo, teve um sonho tranqüilo.

O Segundo Fim

(Escrito em março de 2008)

E do que vivemos, meu amor
Sobrou apenas teu relógio quebrado
Perdido na gaveta perdida do meu criado-mudo
- perdido.
Quebrado,
E martela toda a manhã,
Às 7h,
Que nosso tempo passou.

-

Ainda mais do que relógio quebrado,
Meu amor,
Sobrou também a roupa que tu me deste
Que não consigo lavar
E sobrou o copo em que tu bebeste
Na pia com louça que não consigo limpar
Para completar a dor, meu amor,
Teu cabelo enrolado
Ainda nos lençóis que não consigo trocar
No chão que não consigo varrer.

O Despertar da Nada Bela Adormecida

(Escrito em 24.02.08)

Acordou cedo da manhã com aquele alarme desconhecido. Sonolenta, desgrenhada e cheia de remelas, chafurdou estabanada na gaveta do criado-mudo - que caiu, na escuridão do quarto fechado. Levantou-se, irritada e zonza, ascendeu a luz. Agüentou, corajosa, a dor dos olhos, que incharam. Sentada sozinha no canto da cama de casal que às vezes era enorme, esfregando o rosto com uma das mãos enquanto bocejava, a gaveta caída do chão juntada para o colo, encontrou finalmente o objeto misterioso. Sorrindo. Porque os príncipes de hoje poupam as adormecidas do beijo saburrento - esquecem com elas seus relógios.

Domingo, 11 de Maio de 2008

T7

Calçada. Pés. Calçada, pés, pessoas, lixeiras, lojas. Calçada, pés, pessoas, lixeiras, lojas, bancos, bandidos, carros, carroças. O ônibus chacoalhava.

- Tiraram uma máquina de lavar pra mim. Eu tinha só aqueles tanquinhos, sabe? Até são bons, mas não torcem. E torcer é o mais difícil. Deve ter saído caro, mas tenho só 7! Dois são pequenos e ainda moram comigo, só. Fizeram vaquinha.

Calçada. Pés. Calçada, pés, pessoas, lixeiras, lojas. Calçada, pés, pessoas, lixeiras, lojas, bancos, bandidos, carros, carroças, semáforos, sibilos, fumaça, fogo, fumantes. O ônibus chacoalhava.

- Bateu em mim, guria. Deixei bater. Não, não, deixei bater! Mas também botei ele pra dormir lá nos fundos. Agora faz dois anos que estou sozinha. Mas também porque quero...Porque quero. Eu mais as duas crianças.

Calçada. Pés. Calçada, pés, pessoas, lixeiras, lojas. Calçada, pés, pessoas, lixeiras, lojas, bancos, bandidos, carros, carroças, semáforos, sibilos, fumaça, fogo, fumantes, camelôs, cabelos, Camilas, guardas, guaritas, guarda-sóis. O ônibus chacoalhava.

- Dia desses meu pequeno foi passear com o pai. Passou o dia todo. Quando foi 2h da manhã, me ligou pra buscar ele. Disse que o pai tava enchendo o saco, aquele bêbado. Busquei. Disse pra ele que da próxima vez era pra ligar pra polícia, dar queixa.

Calçada. Pés. Pessoas. Lixeiras... Lo-jas...C-a-l-ç-a-d-a. O ônibus parava.
Levantava do banco ao lado da janela uma passageira.

C-a-l-ç-a-d-a. Ppppp-éééé-sss. Ppppp-eeee-ssss-oooooooo-aaaaaaaaaaaa-sssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss. O ônibus parou.

A passageira desceu do ônibus, no alto de seus 1 metro e 72 centímetros. Amante das conversas alheias. Mulher do mundo. E só pôde pensar que a vida dela era bem boa, sim. Ah, se era.